Círculo Gaúcho de Orquidófilos

Plantas que fizeram história no CGO

MEMÓRIA DAS ESPÉCIES DA REGIÃO SUL
HISTÓRIAS DAS DESCOBERTAS DAS GRANDES MATRIZES DA REGIÃO SUL


Por: Eduardo Masiero
Associado do Círculo Gaúcho de Orquidófilos


I. Cattleya Intermedia Graham ex Hooker

Cattleya intermedia Aquinii I

Famosa e primeira variedade trilabelo de Cattleya intermedia, encontrada na natureza em meados de 1874, na cidade de Porto Alegre, ao que tudo indica nos arredores da Ilha das Flores, devido ao grande número de exemplares da espécie que eram extraídos da região na época. O clone recebeu o nome em homenagem ao seu descobridor, Sr. Francisco de Aquino, o qual de maneira fortuita percebeu em um jardim de uma casa em Porto Alegre o exemplar em floração. Surpreso com tal variação de forma e cores, solicitou uma muda ao morador, o qual lhe presenteou, já que as plantas eram descartadas dos jardins após a floração, como de hábito na época. Tal similaridade somente foi encontrada na natureza novamente depois de mais de 70 anos.
Fonte: Brasil Orquídeas # 25

Cattleya intermedia Flâmea Juvêncio e Flâmea Joãozinho

Após a Cattleya intermedia Aquinii I, foram as primeiras variedades encontradas na natureza. Os clones foram encontrados com mais 17 exemplares, na década de 1950, nos arredores dos municípios de Taquara e Sapiranga, pelos orquidófilos Otomar Ermel, João Wilber e Urbano Glos. Segundo os relatos, o sítio exato da descoberta teria sido os fundos de uma velha olaria, pertencente a um caboclo chamado Juvêncio. Durante a “caçada”, João Wilber, após tropeçar e cair, desviou seu olhar para outras árvores e encontrou a flâmea que até hoje perpetua seu nome. A mesma, durante décadas foi campeã nas exposições onde foi apresentada e causou frisson no meio orquidófilo. Naquela caçada, o único orquidófilo que nada encontrou na mata foi Otomar Ermel. Todavia, o caboclo Juvêncio, percebendo seu insucesso, lhe ofereceu também uma flâmea, a qual cultivava em casa. Otomar lhe comprou o exemplar por Cr$500,00 (quinhentos cruzeiros, valores da época). Segundo contam, a planta teria a melhor forma entre as 19 encontradas e recebeu o nome de flâmea “Juvêncio”, em homenagem ao caboclo. Dentre as flâmeas encontradas podemos citar a Ophelia Rainha, a Ophelia Imperatriz, Ophelia e a flâmea 18.
Fonte: Brasil Orquídeas # 25

Cattleya intermedia caerulea “Paulo Hoppe”

Famoso clone gaúcho descoberto na década de 70 em Porto Alegre. Segundo relatos, a planta original foi comprada pela esposa do Sr. Paulo Hoppe de um carroceiro que passava em frente à sua casa. O objetivo da mulher de Hoppe era presenteá-lo com uma orquídea, já que seu aniversário seria nos próximos dias. A descoberta da planta gira em torno de várias coincidências, pois o carroceiro possivelmente passou em frente a residência do orquidófilo de maneira aleatória, e sua esposa comprou a planta de maneira também aleatória, sem jamais pensar que tal aquisição se tornaria um dos clones retirados da natureza mais importantes do Rio Grande do Sul. Ao que tudo indica, o carroceiro deve ter obtido a planta na região das ilhas de Porto Alegre, junto ao Delta do Jacuí.
Fonte: Sergio Amoretty

Cattleya intermedia albescens “Stumpf”

Trata-se da melhor planta dessa variedade encontrada na natureza até hoje, descoberta na década de 60 no município de Portão, no Rio Grande do Sul, por Rubi Stumpf. O clone foi encontrado em uma figueira juntamente com outros exemplares da mesma variedade, porém a planta que se destacou entre todas, apresentando melhor forma, foi a escolhida por Stumpf para receber o seu nome. O clone é utilizado em todos os cruzamentos para melhorias genéticas das albescens que conhecemos hoje.
Fonte: Otto Guillherme Georg

Cattleya intermedia pintada do Tenente

Encontrada na natureza em meados da década de 1950, no local onde hoje fica a Reserva Ecológica do Taim, em uma localidade conhecida por Albardão. O clone foi de extrema importância na melhoria das Cattleya intermedia que conhecemos hoje. Foi amplamente utilizada pelo orquidófilo Aldomar Sander em cruzamentos da espécie para obtenção de plantas de qualidade superior àquelas conhecidas na época. A “pintada do Tenente”, sem dúvida, faz parte da história do alargamento de pétalas das intermedias. Um de seus cruzamentos que obtiveram excelentes resultados foi realizado com a Cattleya intermedia pétala larga “Arraial”, encontrada também na natureza pelo orquidófilo Otto Guilherme Georg, no município de Rio Grande. Tal cruzamento, realizado pelo respeitado orquidófilo Evaldo Wenzel de São Paulo, obteve clones fantásticos para época, como a Cattleya intermedia tipo ‘Quantum’, adquirida da sementeira de Wenzel por Haruji Iwasita também de São Paulo.
Fonte: Otto Guillherme Georg

Cattleya intermedia Flâmea Jacovenco

Umas das últimas grandes flâmeas encontradas na natureza, descoberta na década de 70 por Arno Lange dentro dos limites do município de Porto Alegre, na região do Lami, em uma área pertencente à Petrobrás.
Fonte: Revista Brasil Orquídeas # 25

As flâmeas de São Lourenço do Sul

A região de São Lourenço do Sul, na Lagoa dos Patos, também foi um sítio importante de clones flameados de Cattleya intermedia encontrados na natureza. Região conhecida por suas figueiras centenárias, recebeu durante muitos anos a visita de orquidófilos à procura de raridades da espécie. Na década de 1960, Anselmo Schreiner e um médico orquidófilo da região encontraram três importantes flâmeas: a CGO, a flâmea Cardeal e a flâmea Cecília, nome da esposa de Anselmo, sobrinha da renomada e saudosa orquidófila Norma Dreher.
Anos mais tarde, no início da década de 1980, novamente o afortunado Anselmo Schreiner encontraria na mesma região o famoso e peculiar clone Flâmea “Toquinho”, o qual receberia esse nome em função da planta ter sido retirada da natureza em um tronco inteiro de uma árvore, cortado com auxílio de uma moto-serra.


II. Laelia Purpurata Lindley

Laelia Purpurata Milionária.

A Laelia purpurata Milionária foi descoberta há mais de meio século, precisamente em 1955, e ainda hoje é apreciada por muitos orquidófilos, despertando curiosidade sobre a sua história. O exemplar foi encontrado no município de Araranguá, no extremo sul catarinense, situado a 220 quilômetros de Florianópolis. Seu descobrimento é pitoresco. Nos finais de semana, como de hábito, o barbeiro Pedro Justino da Silva, mais conhecido como Pedrinho Barbeiro, percorria a mata nativa, próximo à cidade de Araranguá. A intenção era procurar novas variedades da Laelia purpurata para aumentar sua coleção da espécie. Acompanhado do amigo Lili Ghidi, que sempre participava de suas expedições, o orquidófilo saia de madrugada com sua carroça e com destino certo: encontrar novas variedades da planta. Em um domingo do mês de novembro, em 1955, o barbeiro saiu com o amigo para mais uma “caçada”, tendo como destino o Capão da Mangueira, localidade que fica a leste do município de Araranguá, próximo ao Oceano Atlântico. Depois de algumas horas abrindo caminho pela mata fechada do local, o orquidófilo encontrou uma touceira de Laelia purpurata em uma figueira velha. Depois de escalar a árvore, percebeu que a planta estava com espata, prestes a abrir, e mesmo assim, removeu o exemplar. Em casa, Silva colocou a orquídea, ainda desconhecida, em um vaso com xaxim e deixou-a em seu orquidário. Em uma manhã de dezembro, a esposa do barbeiro, Dona Isaurina Espindola da Silva, depois de preparar o café, foi até a porta da cozinha e assustou-se com a beleza da planta , a qual já com suas flores abertas. Encantada, Dona Isaurina chamou o irmão Arthur Espindola, conhecido como Tuca, que também cultivava orquídeas. A recomendação de Espindola foi de levar a orquídea para dentro da casa, enquanto se encarregava de entrar em contato com um orquidófilo do Rio Grande do Sul. Ciente da raridade da orquídea, Pedrinho Barbeiro antecipou-se e cortou um pedaço da planta situado na parte traseira da mesma.
Dois dias depois, o vendedor e orquidófilo Honório Trombini, de Taquara, RS, apareceu na casa do barbeiro à procura da Laelia purpurata encontrada na região de Araranguá. Trombini se deparou com a beleza da planta e deu início a uma longa conversa com o barbeiro Silva, para no final comprá-la por 4 mil cruzeiros.
Já em Taquara, Honório Trombini deixou a planta em seu orquidário e começou a pensar em mostrar a sua nova aquisição aos orquidófilos gaúchos. Um dos primeiros a conhecer a planta, que ainda estava florida, foi o empresário do setor calçadista, Arno Kuns, da cidade de Campo Bom. Kuns ficou encantado e interessado em adquirir aquela variedade. Trombini relatou que havia comprado a orquídea de um barbeiro catarinense e que o mesmo ainda estava com outro pedaço. O empresário começou a negociar com o vendedor, que propôs trocar a planta por um carro zero quilometro, precisamente um fusca, que estava avaliado em 25 mil cruzeiros. Kuns pediu alguns dias para pensar na proposta e com isso ganhou tempo para viajar até Araranguá e propor uma nova negociação para comprar a outra parte, que estava com Pedro Silva. No final, o empresário pagou 7 mil cruzeiros ao barbeiro e o presenteou com dois pares de sapatos. “Com o dinheiro, pude reformar a minha casa e até ampliá-la”, relatou Pedrinho Barbeiro.
De volta ao Rio Grande do Sul, Kuns notou que a planta iria levar alguns anos para florescer, mas lembrou-se que a orquídea de Honório Trombini ainda estava florida e resolveu retornar as negociações. Depois de muita conversa, Kuns se deu por vencido e aceitou a proposta do vendedor, adquirindo a planta pelo valor de um carro. O empresário foi a uma concessionária Volkswagen de Novo Hamburgo, comprou um fusca, emplacou-o e deu a Trombini. Ficava assim com uma planta inteira. O sentimento de exclusividade não permaneceu por muito tempo, pois Kuns recebeu várias propostas para vender um pedaço da planta, que ainda estava sem nome. O primeiro orquidófilo, a comprar uma traseira da orquídea, foi Otto Guilherme Georg, de Novo Hamburgo, que pagou mil cruzeiros pelo pedaço. Em seguida, Anselmo Hoff, também de Novo Hamburgo, pagou 750 cruzeiros por outro pedaço. O bancário Aldomar Sander, que na época morava na cidade de Venâncio Aires, adquiriu um pedaço por 500 cruzeiros. Assim, por receber tantas ofertas de grande importância pela planta, Kuns resolveu batizá-la de Milionária.
Durante 22 anos, somente sete orquidófilos do Rio Grande do Sul tiveram a Laelia purpurata Milionária. Em 1985, foi feito o primeiro cruzamento da Milionária com a Princesinha. Já o segundo, ocorreu em 1987 com a Sputnik, da qual saíram bons cruzamentos, inclusive a Laelia purpurata estriata ‘Paixão’. Dois anos depois, já morando em Osório, o bancário e orquidofilo Aldomar Sander fez a autofecundação da planta (self). Hoje, a Laelia purpurata Milionaria está espalhada por várias partes do Brasil e até do mundo, principalmente no Japão, nos Estados Unidos da América e na Inglaterra, com cruzamentos variados.
Trata-se de exemplar que embora encontrado dentro dos limites geográficos do Estado de Santa Catarina,toda sua história se deu no Estado do Rio Grande do Sul.
Fonte: Federação Catarinense de Orquidófilos

Laelia purpurata Werkhauseri (Ardósia)

O exemplar foi encontrado em 1904, no município de Osório. Recolhida na natureza ainda sem flores, toda sua exuberância e particularidade no colorido surgiram no ano seguinte, no orquidário de Karl Werkhauserer. A coloração azul acinzentada do labelo até aquele momento jamais havia aparecido em qualquer variedade de Laelia purpurata.
Falecido em 1914, Karl Werkhauserer deixou um legado de mistérios e segredos, já que por quase durante 50 anos a planta foi mantida escondida pela filha do descobridor, a qual proibiu a sua contemplação pelos admiradores e colecionadores da espécie. Tal intolerância e egocentrismo causaram desconforto no meio orquidófilo da época, e a dificuldade de uma mera aproximação da planta era tanta que a mesma passou a ser tratada por “jóia da bruxa”.
Todavia, em 1949, um grupo de renomados colecionadores gaúchos da espécie, formado por Dante Vagnotti, Walter Dreher, Walter da Costa Fontoura, Joaquim Coppio Filho e Angelo Rinaldi, após uma difícil negociação conseguiram viabilizar a aquisição de cinco pseudobulbos da planta por uma elevada quantia, e com a exigência de que a transação jamais fosse revelada.
Anos depois, o orquidófilo Rolf Altenburg realizou o primeiro cruzamento entre variedades Werkhaseri, possibilitando o acesso de tão rara variedade a outros orquidófilos. Era o fim de uma era de segredos e mistérios.
Fonte: Livro Laelia Purpurata, a Rainha, de Lou Menezes.

Laelia Purpurata Russeliana ‘Iris’

Clone de belíssima coloração e forma, muito provavelmente uma das últimas grandes descobertas encontradas na natureza no Estado do Rio Grande do Sul. Datada do início da década de 80, a planta foi encontrada pelo famoso coletor e comerciante de orquídeas da região de Terra de Areia, Sr. Arlindo Goldani, conhecido por possuir um orquidário nas margens da BR/101. Morador da região, conhecia todos os sítio e locais favoritos para o crescimento das Laelia purpurata. Foi ali, na região das Lagoas, entre o distrito de Cornélios, a cidade de Terra de Areia e o litoral, que a mesma foi encontrada. A planta germinou em uma enorme figueira junto à casa de uma senhora, também grande apreciadora das orquídeas, que morava às margens de uma das lagoas da região. Quando Arlindo visualizou a beleza da planta, tentou removê-la do local, mas a proprietária impediu todas as tentativas do orquidófilo. Reza a lenda que, frustrado com seu insucesso, Arlindo teria removido a belíssima russeliana em uma noite de ausência dos proprietários da casa.
Essa planta encontrada por Arlindo Goldani era de tão boa qualidade que em 1981, Aldomar Sander comprou a planta inteira em troca de um automóvel, uma Brasília Zero Km.
Fonte: Otto Guilherme Georg e Sergio Amoretty

Laelia Purpurata flâmea Kassel 44, Kassel 212, a Magnífica, flâmea-atro Lothario e Russeliana Delicata

Encontradas na década de 1940, fora dos limites geográficos conhecidos da espécie, a quase 50 km a oeste do litoral, na localidade conhecida por Entrepelado, referência ao cume de dois morros vizinhos “pelados” pelo desmatamento, ente os municípios de Santo Antônio da Patrulha e Taquara.
Descobertas por Albino Kassel, viriam a se tornar ícones da orquidofilia gaúcha, campeãs durante décadas nas exposições no Estado. A grande sementeira de flâmeas e escuras encontradas por Kassel trouxe à tona as famosas flâmea Kassel 212, Kassel 44, a Magnífica e a flâmea-atro Lothario. Também na mesma localidade, na mesma região de Entrepelado, foi descoberta a Laelia purpurata russeliana delicata, que anos mais tarde viria a ser usada exaustivamente como planta-mãe em um grande número de cruzamentos, inclusive pelo extraordinário hibridista Rolf Altemburg, de grata memória, pioneiro e inspirador de diversas gerações.
Uma das características marcantes das purpuratas descobertas na região citada é a floração tardia em relação às plantas já conhecidas. Tal peculiaridade rendeu às mesmas o título de “Natalinas”, alusão à coincidência do auge de suas flores com o período do Natal.
Deve-se destacar que as descobertas feitas por Kassel, especificamente em relação às variedades escuras ou vermelhas, sem sombra de dúvida foram as pioneiras na melhoria genéticas das plantas nessa variedade as quais conhecemos hoje.
Fonte: Otto Guilherme Georg

Laelia Purpurata sanguinea Mentzii

Também encontrada na década de 1940, na região de Lomba Grande, próximo ao famoso nicho de purpuratas de Entrepelado, entre os municípios de Taquara e Santo Antônio da Patrulha. A planta recebeu o nome em homenagem à família Mentz, os quais foram os primeiros a ver suas flores, porém a descoberta da planta na natureza não foi realizada pelos Mentz, mas sim muito provavelmente tenha sido retirada por coletores da região os quais tinham contato com a família de orquidófilos.
Fonte: Otto Guilherme Georg

Laelia Purpurata cárnea ‘ Maria da Glória’

Descoberta na década de 1940, pelo orquidófilo José Graciano, o qual batizou a planta em homenagem a sua esposa. Morador do município de Torres e conhecedor dos principais nichos de desenvolvimento das purpuratas, Graciano encontrou a famosa cárnea dentro dos limites do município praiano, numa região conhecida como Capão da Areia, onde hoje existe o Parque Estadual de Itapeva. Graciano também é o responsável pelas descobertas de outras famosas purpuratas, entre elas, outras cárneas, flâmeas e russelianas, a grande maioria no famoso Capão da Areia, no litoral Norte do Rio Grande do Sul.
Fonte: Otto Guilherme Georg

Laelia Purpurata Alba Elias ou Alba Campeã

Segundo relatos, esta planta também teria sido descoberta na década de 1940, por um grupo de orquidófilos de Torres, entre eles novamente José Graciano e seu irmão Antônio Graciano. O local da descoberta gira em torno da região de coleta do grupo entre os municípios de Curumim e os limites do atual Parque Estadual de Itapeva, local de maior concentração da espécie no Estado do Rio Grande do Sul.
Fonte: Otto Guilherme Georg

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